Protesto de Cesar Camargo Mariano contra remixagem de álbum de Elis Regina reacende o debate sobre os limites da interferência na obra alheia

  • 21/03/2026
(Foto: Reprodução)
Capa do álbum 'Elis', gravado em 1973 por Elis Regina (1945 - 1982) e relançado em edição remixada e remasterizada na última terça-feira, 17 de março Divulgação ♫ OPINIÃO ♬ Pianista, arranjador e diretor musical do álbum lançado em 1973 por Elis Regina (1945 – 1982), Cesar Camargo Mariano expressou em rede social a insatisfação com a remixagem do álbum “Elis”. Orquestrada por João Marcelo Bôscoli, filho primogênito e herdeiro de Elis, com o engenheiro de som Ricardo Camera, a edição remixada e remasterizada do álbum “Elis” foi disponibilizada pela gravadora Universal Music na última terça-feira, 17 de março, como celebração pelos 81 anos de nascimento de Elis Regina. “...Ouvi (a edição) com tristeza. Tristeza por ouvir todo o trabalho de meses de criação do conceito musical, dos arranjos e das execuções, dos planos de gravação e mixagem, todos estudados e muito bem pensados por nós, jogados no lixo. Estas questões, para mim, não são passiveis de alterações por terceiros. [...] Não se pode mexer tecnicamente em uma obra final a este ponto, alterar os planos de mixagem, a voz, os arranjos, os timbres dos instrumentos dos músicos escolhidos a dedo, incluir instrumentos que foram rejeitados, mutilar toda uma dinâmica originalmente muito bem pensada e trabalhada. E não digo estas coisas por estar envolvido visceralmente no projeto original, mas sim pelo respeito que tenho a qualquer obra e seus criadores. Esta é a minha opinião“, conclui Mariano após expor detalhes técnicos que o descontentaram na remixagem das faixas do disco. O protesto público de Cesar Camargo Mariano contra a remixagem do álbum “Elis” reacende o debate sobre os limites éticos da interferência alheia na obra de artistas, sobretudo os já falecidos. No caso do álbum de Elis, não há o que contestar sob o prisma jurídico, já que João Marcelo Bôscoli é um dos herdeiros de Elis e os fonogramas do referido disco, lançado originalmente pela gravadora Philips, pertencem à Universal Music, companhia fonográfica que encampou em 1999 o acervo da Philips / Polygram. Tudo foi feito com o aval da empresa Universal Music. A questão é mesmo ética. Particularmente, defendo que um álbum possa ser remixado desde que esse álbum continue disponível no formato original, tal como foi concebido pelo artista com o arranjador e com o produtor musical. Nesse caso, a edição remixada funcionaria como uma versão alternativa do disco, sem substituir a obra original. Se a edição original continua ao alcance dos ouvintes, não vejo problema na proposta de uma outra experiência sonora, desde que fique evidenciado que a versão remixada é tão somente uma alternativa para a fruição da obra, jamais a edição definitiva. Futuras gerações têm direito a ouvir o disco tão como ele foi concebido. E remixar um álbum é, sim, alterar a forma original. Nesse ponto técnico, Cesar Camargo Mariano tem toda a razão. É fato que, decorridos 53 anos do lançamento do álbum “Elis”, somente Cesar Camargo Mariano pode analisar e apontar com precisão o que maculou a concepção original dos arranjos. Elis já não está aqui para se posicionar. Seja como for, não é o caso de apontar culpados. Como diretor musical do álbum, concebido por ele ao lado de Elis Regina, Mariano tem razão na indignação. Contudo, João Marcelo Bôscoli também tem o direito de propor uma nova mixagem de álbum gravado em época de limitações técnicas. Mal nenhum há nisso. O importante, como dito, é ressaltar que se trata de uma alternativa de som, não do som definitivo que deve ser tomado como referência a partir de então. Por maiores e melhores que sejam os ganhos técnicos, a referência de qualquer álbum será sempre a edição original. ♫ Eis, na íntegra, o texto em que Cesar Camargo Mariano expressou em rede social o descontamento com a remixagem do álbum “Elis”: “Estou sendo procurado para dar minha opinião sobre o lançamento da nova versão remixada e remasterizada do álbum "Elis 1973", do qual fui o diretor musical, arranjador e pianista. Na madrugada de hoje ouvi este lançamento. E respondo que ouvi com tristeza. Tristeza por ouvir todo o trabalho de meses de criação do conceito musical, dos arranjos e das execuções, dos planos de gravação e mixagem, todos estudados e muito bem pensados por nós, jogados no lixo. Estas questões, para mim, não são passiveis de alterações por terceiros. Nada justifica a alteração no final da faixa "É com esse que eu vou", onde o track do teclado RMI foi "arrastado" e antecipado em 4 compassos (!), prejudicando a parte final da canção que foi pensada, exaustivamente, entre mim e Elis, pois tinha um forte sentido aquele espaço que deixei em suspense no arranjo, em função da sua interpretação e da história que estava sendo contada e cantada por ela. Na faixa "Doente, Morena" agora há DUAS guitarras(!). O arranjo final não foi concebido assim. Agora aparecem duas guitarras fazendo um 'duelo' atrapalhado, tirando toda a singeleza e o lirismo da interpretação, do nosso conceito final para a canção. Na faixa "Oriente", há agora um corte súbito em sua voz, no princípio da frase "a possibilidade de ir pro Japão" que, a meu ver, resultou muito mais problemático do que qualquer deficiência na dicção da voz de Elis que pudesse haver na gravação original. Em "Caçador de esmeraldas", a percussão agora está exagerada, e foi incluído um tímpano que, a princípio, era para ser apenas um detalhe sutil no arranjo, criando um ambiente, mas que decidi tirar, pois estava pesado demais. Agora ele aparece 'misteriosamente' e bem à frente, se sobrepondo à voz de Elis e mudando todo o clima do nosso conceito final da obra. Em "É com esse que eu vou", além do novo plano e timbragem dos instrumentos tirarem todo o clima do groove e swing intencional, agora está totalmente fora de sincronismo. E parei por aqui... Todos sabem que sempre fui a favor da tecnologia, quando bem utilizada. Há 22 anos, em 2004, aceitei produzir a remixagem e remasterização do Álbum "Elis & Tom" em 5.1 e DVD Áudio, novíssimas tecnologias na época, com a competência técnica dos sensíveis profissionais, Luís Paulo Serafim e Carlos Freitas, mantendo sempre o maior respeito por toda a obra original. O álbum original 'Elis 1973,' que agora completa 53 anos, pode não agradar a gregos e troianos. E é assim mesmo, tudo certo. Mas agradou a quem mais importava. Os planos técnicos de gravação e mixagem foram construídos de acordo com a intenção da interpretação de Elis e, principalmente, aprovados por ela. Não se pode mexer tecnicamente em uma obra final a este ponto, alterar os planos de mixagem, a voz, os arranjos, os timbres dos instrumentos dos músicos escolhidos a dedo, incluir instrumentos que foram rejeitados, mutilar toda uma dinâmica originalmente muito bem pensada e trabalhada. E não digo estas coisas por estar envolvido visceralmente no projeto original, mas sim pelo respeito que tenho a qualquer obra e seus criadores. Esta é a minha opinião“. CCM

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/03/21/protesto-de-cesar-camargo-mariano-contra-remixagem-de-album-de-elis-regina-reacende-o-debate-sobre-os-limites-da-interferencia-na-obra-alheia.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 10

top1
1. Deus Proverá

Gabriela Gomes

top2
2. Algo Novo

Kemuel, Lukas Agustinho

top3
3. Aquieta Minh'alma

Ministério Zoe

top4
4. A Casa É Sua

Casa Worship

top5
5. Ninguém explica Deus

Preto No Branco

top6
6. Deus de Promessas

Davi Sacer

top7
7. Caminho no Deserto

Soraya Moraes

top8
8.

Midian Lima

top9
9. Lugar Secreto

Gabriela Rocha

top10
10. A Vitória Chegou

Aurelina Dourado


Anunciantes