Almodóvar pensa os limites da criação em 'Natal Amargo', filme 'truncado' e pouco cativante; g1 já viu

  • 22/05/2026
(Foto: Reprodução)
Cena de "Natal Amargo", novo filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que reflete sobre o fazer artístico e os limites da criação. Divulgação. Almodóvar vira a câmera para si mesmo, de novo. Em seu 24º longa-metragem, "Natal Amargo", o diretor espanhol de 76 anos faz o seu regresso ao castelhano após dois anos do lançamento de “O Quarto ao Lado”, filme falado em inglês com Julianne Moore e Tilda Swinton. "Natal Amargo" fez a sua estreia internacional na seleção oficial do 79º Festival de Cannes, na última terça-feira (19). O filme chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio. Ao voltar à sua língua nativa e à Espanha — cenário de toda a sua filmografia —, o cineasta coloca suas memórias e a própria carreira no divã, em uma espécie de inflexão autobiográfica. A promessa e a premissa que cercavam o projeto eram grandes: este seria o filme em que ele seria mais cruel consigo mesmo, segundo entrevistas. Uma obra em que o diretor estava disposto a entrar em um tribunal contra si próprio. A ideia era essa, o resultado...no mucho. Filme dentro do filme O longa acompanha a história de dois cineastas obcecados por trabalho: Elsa (vivida por Bárbara Lennie) e Raúl (interpretado por Leonardo Sbaraglia), que pode ser "lido" como um alter ego de Almodóvar. Elsa é uma diretora que, por não ter alcançado sucesso nas telas, acabou enveredando para o mercado publicitário. Perdeu a mãe há cerca de um ano e tenta elaborar o luto em meio a crises de enxaqueca, de ansiedade, uma briga com uma amiga (Victoria Luengo) e o namoro com um bombeiro-stripper (Bonifácio, interpretado por Patrick Criado). Raúl, por outro lado, é um realizador de prestígio que se encontra num limbo criativo. Ele tenta dar vida a um novo roteiro "inspirado" nas histórias e nos amores da sua assistente, Mônica (Aitana Sánchez-Gijón), enquanto deixa a vida pessoal completamente de lado. Essa metalinguagem sobre o fazer artístico não é novidade em sua filmografia. Almodóvar já a explorou antes em obras como "A Lei do Desejo" (1987), "Má Educação" (2004) e "Dor e Glória" (2019), que também traziam cineastas como os grandes protagonistas de suas próprias dores. A grande brincadeira desta vez é que estamos diante de criador e criatura, tudo de uma vez. A jornada de Elsa é a própria ficção sendo moldada pela mente de Raúl, em uma dinâmica que nos coloca assistindo a um filme dentro de outro. E é aí onde o negócio aperta: as duas narrativas vão correndo em paralelo, saltando entre 2004 e 2026, transformando um personagem em outro, às vezes até um personagem em dois. Tudo de maneira bastante “truncada”. O espectador precisa fazer esforço para não se perder e conseguir entender, nesse grande jogo de espelhos, quem é quem. Que ou quais personagens estão inspirando quem. E mais: o quanto do próprio Almodóvar está ali. "Natal Amargo", novo filme do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, chega aos cinemas brasileiros em 28 de maio. Divulgação Irônico e bonito de ver O filme entrega exatamente o que se espera de um “almodrama” (termo usado pelo escritor cubano Guillermo Cabrera Infante para descrever um melodrama de Almodovar) em termos de estética: enquadramentos belíssimos, direção de arte primorosa. Como espectador, você está sempre numa ânsia de ver o próximo cenário. Hipnotizado pelas garrafas azuis, pelas poltronas amarelas, pelos casacos vermelhos. Tudo está no lugar. Nada sobra. O diretor também mostrou que não perdeu a mão para dosar o drama com pitadas de humor aqui e ali. Como quando a assistente e fiel escudeira Mônica joga uma provocação a Raúl (ou seria ao próprio Almodóvar?): “Sai de casa um pouco! Você já fez seus melhores filmes, pode viver somente do seu prestígio agora”. E ainda dá outras piscadelas para o espectador, mais adiante: “Por que não cede e faz filme para streaming? A Netflix é doida por você há anos”. Raúl não dá o braço a torcer e nega. Corajoso ao tentar ser melhor do que já foi Ao longo de toda a trama, Almodóvar coloca na boca dos seus personagens reflexões com as quais ele próprio tem se deparado ao longo da sua trajetória: o medo da decadência, a falta de criatividade, a dificuldade de encontrar novas histórias, o desafio de ser melhor do que já se foi um dia. O filme também levanta uma outra questão, interessantíssima: até que ponto um artista tem o direito de usar a vida alheia para fabricar suas obras? Na sinopse oficial da trama, o protagonista é descrito como alguém "capaz de vender a alma ao diabo desde que continue a ver a linha vertical, o cursor piscante do computador, vivo, que o levará a escrever uma história que nem ele mesmo conhece e pela qual está disposto a tudo". Diante de todos esses embates, a vida real parece sempre desmontar o controle do cineasta. E há de se reconhecer: Almodóvar é ousado ao propor esse tipo de reflexão sobre o que fez de si mesmo ao longo de sua vida, jogando luz sobre o tipo de arte que produziu e, principalmente, qual foi o custo humano dessa criação. Pôster em português de "Natal Amargo", novo filme de Almodóvar. Divulgação Honesto, pero no mucho Ele derrapa, no entanto, ao não ir até as últimas consequências. A sensação que fica é a de que o diretor espanhol, ainda assim, escolheu a dedo os melhores recortes e os questionamentos para os quais ele já teria respostas confortáveis para dar. Não se trata de cobrar que o cineasta faça uma sessão pública de terapia ou se autoflagele na frente da tela, mas veja: a expectativa foi criada por ele mesmo. Os cineastas (Raúl, Elsa e o próprio diretor espanhol) admitem, de fato, estar penando para encontrar uma nova história que lhes devolva o tesão e o prazer de filmar. Mas os três estão colocados na trama como pessoas que estão escrevendo não porque sabem o que querem dizer, mas sim, porque precisam descobrir. Ao se esquivar do mergulho profundo que ele mesmo propôs, o diretor entrega um exercício de metalinguagem que carece de mais honestidade. Não tem como não notar. Cartela resenha crítica g1 Arte/g1

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2026/05/22/almodovar-pensa-os-limites-da-criacao-em-natal-amargo-filme-truncado-e-pouco-cativante-g1-ja-viu.ghtml


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